A apresentação de Edson Gomes no Lollapalooza Brasil, na última sexta-feira (20), e sua exibição na TV Globo colocam em evidência duas dimensões que caminham juntas, mas nem sempre em harmonia: as contradições da mídia e a consagração de um artista que sempre existiu pela força da resistência.
Chegar ao palco de um dos maiores festivais do país, aos 70 anos e após mais de 50 anos de carreira, é um marco importante. No entanto, no caso de Edson Gomes, esse reconhecimento não nasce agora. Ele é resultado de uma trajetória construída muito antes da validação dos grandes meios — sustentada por um público fiel que, ao longo de décadas, manteve vivo um repertório crítico, direto e profundamente conectado às denúncias das injustiças sociais.
Durante a transmissão, a apresentadora Kenia Sade sintetizou essa dimensão ao afirmar: se Bob Marley é o maior nome do reggae no mundo, Edson Gomes é “o cara do reggae no Brasil”. A fala, ao mesmo tempo em que reconhece sua grandeza, também escancara uma pergunta inevitável: por que esse mesmo artista passou tanto tempo fora dos espaços mais visíveis da própria mídia que agora o consagra?
O reggae de Edson Gomes nunca foi moldado para caber nas lógicas comerciais dominantes. Suas músicas, marcadas pela crítica social e pela denúncia, circularam por caminhos alternativos — nos shows independentes, nas periferias, nos sistemas de som, na escuta coletiva que não depende da legitimação institucional para existir. Como ele próprio canta, “mesmo que o rádio não toque, mesmo que a TV não mostre”, sua voz nunca deixou de ecoar.
Por isso, a consagração que se evidencia no Lollapalooza e na transmissão televisiva não pode ser compreendida apenas como fruto desse momento. Ela é, sobretudo, o reconhecimento tardio de algo que já estava consolidado: a relação orgânica entre artista e público. Foi essa base que sustentou sua carreira por décadas, mesmo diante da ausência — ou recusa — dos grandes veículos.
Ao comentar o show, Edson Gomes destacou o festival como “uma vitrine grandona” e mais um degrau na trajetória. A fala aponta para o impacto do momento, mas não redefine sua história. Ao contrário: reforça que o palco do Lolla amplia uma visibilidade que seu público já vinha garantindo há muito tempo.
O que se vê, portanto, não é o surgimento de um ícone, mas o reconhecimento, por parte da grande mídia, de um artista que sempre foi consagrado — não por ela, mas pela persistência de sua obra e pela fidelidade de quem nunca deixou de escutá-lo.

%2009.18.49_f05792ac.jpg)