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| Chef Solange Borges. Foto: Retrato de autoria da fotógrafa Fernanda Vasconcellos |
A retirada da fotografia da chef Solange Borges de uma exposição instalada no térreo do Fórum de Camaçari gerou repercussão e denúncias de racismo religioso. O caso ocorreu após o juiz Cesar Augusto Borges de Andrade, da 1ª Vara da Fazenda Pública do município, emitir o Ofício nº 020/2026, em 20 de fevereiro, questionando a permanência da imagem no espaço público.
No documento, o magistrado afirma ter constatado a exposição fotográfica e menciona especificamente o retrato da chef, classificando-a como “personagem vinculada a religião de matriz africana”. O juiz argumenta que a presença da imagem “não parece condizente” com as instalações do prédio público e sugere a retirada da obra ou a abertura do espaço para outras matrizes religiosas, sob o argumento de garantir “igualdade de tratamento” e observância ao Estado laico, com base nos artigos 5º e 19 da Constituição Federal.
A decisão foi criticada pelo advogado Marinho Soares, que classificou o ato como racismo religioso. Segundo ele, houve seletividade na medida adotada, já que outra fotografia da mesma exposição, retratando uma mulher negra segurando a imagem de Santo Antônio, símbolo do catolicismo, permaneceu exposta sem questionamentos.
Para o advogado, o ofício direciona o questionamento exclusivamente às religiões de matriz africana, o que caracterizaria discriminação. Ele afirma que a conduta ultrapassa o campo da intolerância religiosa e se enquadra como racismo religioso, prática tipificada na legislação brasileira.
A chef Solange Borges se manifestou publicamente sobre o episódio e afirmou que transformou o episódio em um ato de afirmação. “Uma mulher preta sorrindo é um ato revolucionário”, afirmou.
A mostra da qual sua imagem fazia parte tem como tema “O Brilho das Pessoas” e busca destacar trajetórias inspiradoras da comunidade local. Para ela, a fotografia representa conquistas pessoais e coletivas e simboliza o protagonismo de mulheres negras em espaços de visibilidade.
Solange também convocou apoiadores para participar do Festival do Dendê e do lançamento de seu livro homônimo, defendendo a valorização da cultura afro-brasileira e o fortalecimento de iniciativas empreendedoras ligadas à identidade negra.
Quem é a chef Solange Borges
A imagem retirada da exposição é da chef Solange Borges, cozinheira, educadora e empreendedora social baiana reconhecida pelo trabalho de valorização da cultura afro-brasileira por meio da gastronomia. Iniciada no Candomblé, ela atua como cozinheira ritualística e desenvolve projetos que unem culinária, ancestralidade e geração de renda.
Solange é idealizadora do projeto Culinária de Terreiro, criado na Agrovila Pinhão Manso, em Camaçari, iniciativa voltada à formação profissional, ao fortalecimento da identidade cultural negra e ao incentivo ao empreendedorismo a partir da comida tradicional de matriz africana.
Além da atuação social, organiza eventos culturais e gastronômicos, como o Festival do Dendê, e se consolidou como referência na promoção da culinária afro-brasileira e no estímulo ao protagonismo de mulheres negras em espaços públicos e institucionais.
O caso reacende o debate sobre liberdade religiosa, laicidade do Estado e combate ao racismo religioso. A Lei nº 14.532/2023 equipara a injúria racial ao crime de racismo, incluindo práticas motivadas por discriminação religiosa, o que pode fundamentar eventuais medidas jurídicas relacionadas ao episódio.
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