Papa Leão XIV pede perdão pelo papel histórico da Igreja na escravidão

 

Foto: Vatican media

O Papa Leão XIV fez nesta segunda-feira (25) um pedido histórico de perdão pelo envolvimento da Igreja Católica na legitimação da escravidão. A declaração foi apresentada na encíclica Magnifica Humanitas (“Humanidade Magnífica”), divulgada no Dia da África.

No documento, o pontífice reconhece que antigos posicionamentos e documentos da própria Igreja contribuíram para justificar a submissão e a escravização de povos considerados “infiéis” por monarquias europeias durante o período colonial. O papa classificou esse passado como uma “ferida na memória cristã”.

Embora outros líderes da Igreja já tenham se desculpado pela participação de cristãos no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, o pronunciamento de Leão XIV ganhou destaque por reconhecer de forma mais direta a responsabilidade histórica da Santa Sé e de antigos pontífices nesse processo.

A escolha do Dia da África para a divulgação da encíclica ampliou o simbolismo do gesto. Celebrada em 25 de maio, a data marca a luta dos povos africanos por liberdade, soberania e reconhecimento histórico.

A historiadora Patrícia Teixeira Santos, professora titular de História da África na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirmou que o pronunciamento representa um marco importante no debate sobre memória, racismo e colonialismo.

Segundo ela, a Igreja Católica já havia produzido documentos contra a escravidão ao longo da história, especialmente durante o século XIX, mas ainda faltava um reconhecimento explícito sobre o envolvimento institucional com o passado escravista.

“Faltava explicitamente um pronunciamento da Igreja com relação ao passado escravista e ao envolvimento dela com esse passado”, destacou a professora.

Patrícia também ressaltou que o pedido de perdão ocorre em um momento em que o mundo precisa rever a forma como enxerga a África e os povos africanos, não apenas pela ótica da exploração, mas reconhecendo sua importância na construção da humanidade e da cultura mundial.

Na encíclica, Leão XIV relaciona ainda o passado escravista às formas contemporâneas de exploração econômica e tecnológica. O texto aborda desafios ligados à inteligência artificial, ao colonialismo econômico e às condições de trabalho associadas à extração de minerais utilizados na fabricação de equipamentos digitais.

Para a historiadora, o gesto do papa ultrapassa os limites da Igreja Católica e dialoga com populações afrodescendentes e africanas em diferentes partes do mundo.

“Para todos nós, católicos e não católicos, isso tem um papel profundamente transformador”, avaliou.

Patrícia afirmou ter recebido a notícia com emoção e disse acreditar que o reconhecimento pode fortalecer o combate ao racismo e às desigualdades herdadas da escravidão e do colonialismo.

“Nosso caminho é o caminho da fraternidade, da reivindicação justa e do dia a dia antirracista”, afirmou.

Ao pedir perdão em nome da Igreja, Leão XIV coloca a memória da escravidão no centro de uma reflexão sobre dignidade humana, justiça histórica e responsabilidade institucional, reacendendo debates sobre reparação, inclusão e enfrentamento ao racismo estrutural.


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