A trajetória da atriz baiana Chica Xavier (1932-2020) será celebrada no documentário inédito “Amor e Fé: Chica Xavier”, selecionado para integrar a programação oficial do Festival do Rio 2026. Dirigido por Clementino Junior, filho da artista, o longa revisita a vida, a carreira, a religiosidade e a atuação política de uma das pioneiras da representatividade negra nas artes cênicas brasileiras.
Com 88 minutos de duração, o documentário tem roteiro de Bruna Christine e produção de Gregory Baltz. A produção acompanha a trajetória de Francisca Xavier Queiroz de Jesus desde suas origens em Salvador até a consolidação da carreira no teatro, cinema e televisão.
Nascida em Salvador, em 22 de janeiro de 1932, Chica Xavier cresceu em ambientes ligados às tradições de matriz africana. Sua formação foi marcada pela convivência com lavadeiras, trabalhadoras domésticas e mães de santo. Ainda na Bahia, teve contato com o Candomblé e, posteriormente, no Rio de Janeiro, desenvolveu sua trajetória religiosa na Umbanda.
Chica deixou Salvador ao lado de Clementino Kelé, seu companheiro na vida e na arte, e chegou ao Rio de Janeiro em janeiro de 1953. Na capital fluminense, iniciou sua formação teatral como ouvinte no Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno.
Sua estreia nos palcos ocorreu em 1956, em “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes, com direção de Léo Jusi e participação de integrantes do Teatro Experimental do Negro (TEN), movimento idealizado por Abdias Nascimento.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Chica Xavier construiu uma extensa trajetória na televisão. Participou de produções como Saramandaia, Dancin’ Days, Marrom Glacê, Tenda dos Milagres, Renascer, Pátria Minha, Força de um Desejo e Esperança. No cinema, esteve em filmes como O Assalto ao Trem Pagador, A Deusa Negra, A Partilha e Nosso Lar.
Representatividade negra
O documentário também aborda os desafios enfrentados por Chica Xavier como mulher negra no audiovisual brasileiro. Durante boa parte de sua carreira, atrizes negras eram frequentemente escaladas para personagens secundárias e trabalhadoras domésticas.
Segundo Clementino Junior, a presença da atriz ajudava a ampliar a dimensão das próprias personagens.
“A maioria das personagens de Chica Xavier foram mulheres do povo, trabalhadoras domésticas, escravizadas da Casa-Grande, donas de casa de periferia… Sua altivez e presença de cena induziram os autores à ampliação da existência dessas personagens na trama”, afirma o diretor.
O filme também recupera críticas feitas pela atriz às desigualdades existentes no meio artístico, incluindo diferenças de cachês, invisibilidade e racismo na publicidade.
Atuação para além das telas
“Amor e Fé: Chica Xavier” também apresenta aspectos menos conhecidos da trajetória da artista, como sua atuação no serviço público, nos movimentos sociais e na defesa da cultura afro-brasileira.
Chica foi conselheira da Fundação Cultural Palmares e participou de articulações relacionadas à valorização da história e da cultura negra na educação brasileira. O documentário recupera ainda sua atuação religiosa no Rio de Janeiro, onde fundou e dirigiu o Terreiro Irmandade do Cercado de Boiadeiro, em Sepetiba.
Para Clementino Junior, o filme é também uma forma de apresentar diferentes dimensões da mãe para além da artista conhecida pelo público.
“Os relatos trazem muitas dimensões de uma mulher preta baiana com quem qualquer pessoa se identifica. Não é à toa que sua biografia se intitula ‘Mãe do Brasil’”, afirma.
Chica Xavier morreu em 8 de agosto de 2020, aos 88 anos. Além de mais de seis décadas dedicadas às artes, deixou uma trajetória ligada à luta antirracista, à religiosidade de matriz africana e à ampliação da presença de artistas negros no audiovisual brasileiro.

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