A Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte elegeu, nesta segunda-feira (3), a nova Mesa Administrativa Gestora da instituição, em Cachoeira, no Recôncavo baiano. A eleição marca um novo momento para a confraria, após meses de uma disputa interna que se estendeu ao Poder Judiciário e mobilizou órgãos públicos estaduais.
A irmã Cleusa Santana foi eleita presidenta da Mesa Administrativa Gestora. Também passam a integrar a gestão a vice-presidenta Adeilde Ferreira de Souza, a tesoureira Neci Santos Leite e a secretária Jordânia Souza Freitas.
O Conselho Fiscal será composto pelas irmãs Celina Maria Salla, Nilza Prado e Floriceia Balbino. Já o Conselho de Honra, com funções deliberativas e disciplinares, terá como integrantes Lindaura da Paz, Dalva Damiana de Freitas e Aurelina de Jesus.
A eleição foi acompanhada por representantes de diversas instituições, entre eles a primeira-dama do Estado da Bahia, professora Tatiana Velloso; a prefeita de Cachoeira, Eliana Gonzaga; o promotor de Justiça da Comarca de Cachoeira, Victor Teixeira; o promotor de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Imaterial da Bahia, Allan Cedraz; o promotor de Justiça do Meio Ambiente, Augusto César; o delegado da Polícia Civil de Cachoeira, Thales Amaro; o major Vitor, da Companhia Independente da Polícia Militar de Cachoeira; o representante do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), Lourival Trindade, além de representantes da Defensoria Pública do Estado.
Disputa chegou ao Tribunal de Justiça
A eleição acontece após um período de instabilidade na Irmandade, marcado por uma disputa administrativa que resultou em ações judiciais.
Em março deste ano, a Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) concedeu, por unanimidade, medidas protetivas de urgência em favor de 13 idosas integrantes da confraria. A decisão determinou o afastamento de duas dirigentes da instituição e estabeleceu que elas não poderiam se aproximar das irmãs a menos de 100 metros, nem manter contato pessoal ou virtual com as vítimas.
O acórdão, de relatoria do desembargador Eduardo Afonso Maia Caricchio, reformou decisão da primeira instância que havia negado o pedido. A ação foi proposta por integrantes da Irmandade, que relataram episódios de violência psicológica e coação moral.
Patrimônio cultural e religioso
Reconhecida como uma das mais tradicionais confrarias religiosas do Brasil, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte tem origem no século XIX. Historiadores apontam que seus primeiros registros datam de 1810, quando mulheres negras escravizadas passaram a se organizar para arrecadar recursos destinados à compra da alforria de pessoas escravizadas.
Após um período de perseguições em Salvador, parte das irmãs se estabeleceu em Cachoeira, onde a confraria retomou suas atividades por volta de 1840. Desde então, a Irmandade mantém viva uma tradição que une a devoção católica à preservação das religiões de matriz africana, tornando-se um dos maiores símbolos da resistência, da fé e da cultura afro-brasileira no Recôncavo Baiano.
A Festa de Nossa Senhora da Boa Morte será realizada entre os dias 12 e 17 de agosto, reunindo celebrações religiosas, cortejos e manifestações culturais que atraem visitantes de diversas partes do Brasil e do exterior.

