Após anos de abandono, Igreja dos Remédios terá obras de restauração autorizadas em Cachoeira






Após anos de abandono, a Igreja dos Remédios, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, terá as obras de restauração iniciadas. A ordem de serviço será assinada nesta sexta-feira (16), às 16h, na Câmara de Vereadores, durante agenda da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e da presidente da Funarte, Maria Marighella.

A autorização marca o início do processo de recuperação de um dos principais patrimônios históricos do município, que integra o conjunto arquitetônico tombado da cidade. O objetivo é restaurar a estrutura do templo e garantir a preservação do bem cultural.

A agenda institucional em Cachoeira inclui ainda, às 15h, o ato de tombamento do Terreiro Icimimó como Patrimônio Cultural Brasileiro, pelo Iphan, e, às 17h, encontro com a Irmandade da Boa Morte e cortejo cultural para a abertura do evento Rede Capoeira, no Jardim Grande.


Igreja dos Remédios, anos 1970. Registro de um período festivo que mostra um coreto verde e amarelo, usado como palco na época, indicando apresentações de filarmônica e samba de roda.


Patrimônio negro e religioso

A Igreja dos Remédios possui forte ligação com a história do povo negro no Recôncavo. Entre a segunda metade do século XIX e o século XX, o templo foi frequentado pela Irmandade do Bom Jesus dos Martírios, formada por negros da nação Jeje. O espaço abrigou práticas religiosas, culturais e formas de organização comunitária que contribuíram para a reafirmação da identidade afrodescendente em Cachoeira.

Segundo a tradição oral, o local também era frequentado por pessoas ligadas ao Zoogodô Bogum Malê Seja Hundé (Roça do Ventura), uma das mais importantes casas de candomblé jeje da Bahia. Outro marco histórico é a tradição do caruru de São Cosme e São Damião, distribuído desde os tempos da antiga Capela dos Remédios e mantido até hoje.



Luta da comunidade

A principal voz na defesa do templo é Naiara Jambeiro, moradora vizinha à igreja. Há anos, ela denuncia o abandono, protocola pedidos e mobiliza a comunidade em busca de apoio institucional.

 “Acordo todos os dias triste em ver um templo tão pequeno, bonito e importante para a cultura e o turismo religioso com suas partes caindo. Cada telha que cai é uma lágrima da Igreja dos Remédios chorando”, afirma.

Mesmo com a precariedade do espaço, Naiara mantém a tradição anual do caruru de São Cosme e São Damião, atualmente realizado na porta da igreja, como forma de resistência cultural e denúncia pública da situação do prédio.

“Apesar de todo esforço, até agora não houve nenhuma ação concreta das autoridades para barrar a degradação”, afirma.

Naiara Jambeiro e crianças na distribuição do Caruru de sete meninos. Foto: Acervo pessoal


Situação nacional

O caso da Igreja dos Remédios reflete um problema mais amplo. De acordo com o Relatório de Bens Materiais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mais de 100 igrejas no Brasil apresentam estado de conservação classificado como “ruim” ou “péssimo”. Na Bahia, além da Igreja dos Remédios, outros 12 monumentos estão nessa condição, entre eles a Igreja Matriz de Santiago, em Cachoeira, e a Igreja e Convento de São Francisco, em Salvador.

O que diz o Iphan

Procurado pela reportagem, o Iphan informou que realizou vistorias na Igreja Nossa Senhora dos Remédios, inclusive em 2025, e autorizou, a pedido da Defesa Civil, o isolamento do entorno do imóvel para evitar riscos à população. No entanto, segundo o órgão, o isolamento ainda não foi executado pelos responsáveis.

O instituto afirmou ainda que adotou medidas de fiscalização diante do estado de abandono e que está em tramitação um processo de contratação emergencial de empresa especializada para a realização de obras, aguardando previsão orçamentária para execução.

O Iphan ressaltou que a Igreja Nossa Senhora dos Remédios é uma propriedade particular e que, conforme o Decreto-Lei nº 25/1937, a responsabilidade pela manutenção de bens tombados é de seus proprietários. Ao órgão federal cabe a fiscalização para evitar danos ou descaracterização do patrimônio tombado.




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