Evento gratuito acontece de 16 a 18 de janeiro e entrega o Troféu Sankofa a oito referências da capoeira, do samba de roda e da religiosidade afro-baiana, com presença de Margareth Menezes e Maria Marighella
Mestra Dona Rita da Barquinha, Mestre Bigo, Mestra Lindaura da Boa Morte Mestre Domingo Preto
Mestre Bigo, Mestre Domingo Preto, Mestre Aurino de Maracangalha, Mestre Ecinho, Mestra Dona Maninha, Mestra Dona Dalva, Mestra Dona Rita da Barquinha e Mestra Lindaura da Boa Morte, referências vivas da cultura popular, são os protagonistas da 7ª edição do Rede Capoeira: Heróis Populares – Edição Especial Recôncavo da Bahia, que acontece entre os dias 16 e 18 de janeiro, nas cidades de Santo Amaro e Cachoeira.
Com suas vidas dedicadas à preservação e transmissão de saberes como a capoeira, o samba de roda e a religiosidade popular afro-brasileira, os oito mestres e mestras recebem o devido reconhecimento pelas suas trajetórias no dia 16 (sexta-feira), às 17h, em cerimônia oficial de premiação, com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e da presidenta da Funarte, Maria Marighella, reafirmando a importância do evento no cenário nacional de valorização do patrimônio imaterial.
A programação tem início na sexta-feira (16), com abertura em Santo Amaro, e segue no mesmo dia para Cachoeira, onde acontece, a partir das 17h, a cerimônia oficial de entrega do Troféu Sankofa, que é uma referência ao símbolo africano Sankofa, reconhecendo a memória ancestral, que conecta passado, presente e futuro.
Os homenageados
Mestre Ecinho é um dos grandes nomes do samba de roda de Santo Amaro e da região de Acupe. Nascido em 1951, no Vale do Iguape, em Cachoeira, é filho da centenária sambadeira Dona Maninha e consolidou-se como um dos últimos grandes cantadores de chula do município. Iniciado por mestres históricos como Lió e Preta, tornou-se referência pelo rigor musical, pelo domínio do “grito da chula” e pela atuação em grupos tradicionais como o Samba de Roda Raízes de Acupe, além de integrar diversas formações da região. Sua trajetória representa a resistência quilombola e a continuidade de uma das expressões mais ancestrais do Recôncavo.
Mestra Lindaura da Boa Morte, também conhecida como Irmã Lindaura da Paz, é Juíza Perpétua da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, uma das mais antigas confrarias afro-católicas do Brasil. Guardiã da memória e da espiritualidade da irmandade, ela simboliza a resistência das mulheres negras que, desde o período escravista, transformaram a fé em instrumento de luta, solidariedade e liberdade. Sua atuação é fundamental para a preservação da Festa da Boa Morte, patrimônio imaterial da Bahia e expressão máxima da ancestralidade afro-baiana.
Mestra Dona Rita da Barquinha, nascida em Bom Jesus dos Pobres, distrito de Saubara, é a grande guardiã da tradição das barquinhas, manifestação cultural ligada ao mar, à fé e ao samba de roda. Iniciada ainda criança, transformou um ritual comunitário em símbolo identitário do seu povo, levando a barquinha a diversos palcos do Brasil e do mundo. Criadora de um grupo formado majoritariamente por jovens, Dona Rita mantém viva a tradição ao mesmo tempo em que forma novas gerações, fazendo da cultura popular um espaço de pertencimento, reconhecimento e continuidade.
Mestra Dona Maninha, Maria de Lourdes Ferreira, é a matriarca do samba de roda do Recôncavo Baiano. Aos 110 anos de idade, natural de Acupe, em Santo Amaro, foi reconhecida como uma das mais antigas guardiãs vivas da tradição. Descendente de pessoas escravizadas, preservou cânticos, ritmos e danças que atravessaram séculos e hoje são reconhecidos como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Sua presença é símbolo de resistência, ancestralidade e força da mulher negra na construção da identidade cultural baiana.
Mestra Dona Dalva, nascida em 1927, em Cachoeira, é uma das maiores referências do samba de roda no Brasil. Fundadora do Samba de Roda Suerdieck, construiu sua trajetória conciliando o trabalho como operária da fábrica de charutos com a preservação das tradições afro-baianas. Doutora Honoris Causa pela UFRB, é também liderança da Irmandade da Boa Morte e compositora de sambas que narram o cotidiano e a resistência do povo negro. Dona Dalva é reconhecida como um verdadeiro tesouro humano do Recôncavo.
Mestre Domingo Preto, Domingos Ferreira, é uma das vozes mais potentes da chula e do samba de roda de Santiago do Iguape. Mestre da tradição oral, é reconhecido pela improvisação poética e pelo rigor técnico da chula, onde o canto antecede a dança. Sua atuação vai além da música: é liderança comunitária e referência na afirmação da identidade negra quilombola, utilizando o samba como ferramenta política, educativa e ancestral.
Mestre Bigo, Francisco Thomé dos Santos Filho, é um dos grandes guardiões da Capoeira Angola e discípulo direto de Mestre Pastinha. Nascido em Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, dedicou mais de sete décadas à preservação da filosofia, do ritual e da musicalidade da capoeira tradicional. Atuante na Bahia e em outros estados, Mestre Bigo é reconhecido como elo vivo entre a capoeira do século XX e as novas gerações, sendo referência em projetos de salvaguarda da cultura afro-brasileira.
Mestre Aurino de Maracangalha, também conhecido como Mestre Aurino da Viola, é um dos maiores mestres da viola machete e da chula no Recôncavo Baiano. Natural de Maracangalha, construiu sua trajetória como poeta do samba chula, dominando afinações raras e mantendo viva a centralidade do canto na tradição. Seu trabalho de registro fonográfico e sua atuação em festas populares e projetos culturais fizeram dele uma referência nacional na preservação do samba de roda.
Programação no Recôncavo
Ao longo dos três dias, o Rede Capoeira 2026 ocupa Santo Amaro e Cachoeira com uma programação gratuita que inclui vivências com mestres da cultura popular, ações griô, painéis, oficinas, rodas de capoeira, samba de roda, maculelê, shows, feira de economia criativa, vila gastronômica e manifestações tradicionais. Após a entrega do Troféu Sankofa, o público acompanha apresentações culturais que reforçam a vitalidade das tradições do Recôncavo. O evento reúne ainda importantes mestres da capoeira nacional e internacional, além de pesquisadores e intelectuais, fortalecendo o diálogo entre ancestralidade, memória e produção contemporânea.

.png)