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| Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial (IA). |
Por Mário Jorge*
Estaria a TV Bahia decretando o fim do entretenimento em sua programação?
As recentes demissões promovidas pela Rede Bahia na segunda-feira (18) acenderam um sinal de alerta no mercado. Entre os desligamentos, chama atenção o do jornalista Lucas Almeida, jovem negro, oriundo do Recôncavo da Bahia e repórter de produções locais e nacionais. Sua saída ocorre em meio a uma série de cortes, aproximadamente dez, que atingem justamente profissionais ligados ao entretenimento, à produção cultural, à direção de programas e ao setor de operações da emissora.
O argumento pode ser o de reestruturação empresarial, mas o que parece estar em curso é uma mudança profunda no modelo de televisão que a emissora deseja construir.
Historicamente, a TV Bahia ocupou um espaço importante na valorização da cultura baiana. Programas como Mosaico Baiano e Conexão Bahia ajudaram a projetar artistas, manifestações populares e culturais da capital e do interior do estado, além de personagens que dificilmente teriam espaço em uma televisão cada vez mais centralizada e comercial.
Agora, informações de bastidores indicam que até mesmo os programas que ainda resistem poderão ser produzidos por uma empresa terceirizada, restando às “Luanas”, Assis e Souza, duas mulheres negras, carismáticas, competentes e comprometidas com a valorização da cultura e da identidade baiana, acumular funções sem a devida compensação, até que o fim seja decretado.
Esse é o clima nos corredores da emissora: medo, insegurança e ameaça constante de novos cortes, segundo relatos.
A pergunta inevitável é: o que está por trás dessas decisões?
Ao que tudo indica, a emissora estaria apostando, cada vez mais, em um modelo de televisão baseado no jornalismo policialesco e na disputa por audiência a qualquer custo. O avanço de programas sensacionalistas e o crescimento de fenômenos como o “Alô Juca” parecem pressionar a TV Bahia a seguir pelo mesmo caminho: mais violência, mais tragédia, mais exploração do medo cotidiano como produto televisivo.
Mas qual o preço disso para a televisão baiana?
Quando o entretenimento perde espaço, a cultura também perde voz. O interior e as periferias perdem visibilidade. A música baiana, os artistas independentes e populares desaparecem da grade. A televisão deixa de refletir a diversidade da Bahia para mergulhar em uma programação pautada quase exclusivamente pela lógica da violência, do ao vivo e da audiência que gera mais retorno financeiro.
Outra questão que merece reflexão é a política de diversidade adotada pela emissora nos últimos anos. A partir de 2020, em meio ao fortalecimento global das pautas antirracistas, a TV Bahia ampliou a presença de jornalistas negros em sua programação. Foi um movimento importante, simbólico e necessário.
Mas, diante das recentes mudanças, fica a dúvida: a política de diversidade foi oportunismo? Teria sido apenas uma resposta momentânea à pressão social daquele período? Um gesto alinhado ao espírito do tempo, mas sem compromisso estrutural de longo prazo? O discurso antirracista e programas como Conversa Preta serviram apenas a interesses mercadológicos e financeiros?
As respostas talvez estejam sendo dadas silenciosamente nas decisões tomadas dentro da empresa.
O que se vê hoje é uma televisão que parece caminhar para um modelo menos cultural, menos diverso e mais dependente da exploração do medo como estratégia de audiência.
E isso deveria preocupar não apenas jornalistas e profissionais da comunicação, mas toda a sociedade baiana. Porque o debate não é apenas sobre demissões. É sobre qual televisão queremos para a Bahia.
* Mário Jorge é jornalista, mestre e doutorando em Comunicação. Pesquisador das relações entre Comunicação, Cultura e Sociedade, é autor do livro "Juventudes Negras na TV Baiana". Filho do Recôncavo baiano e pai de Vicente.


