Flica: autores baianos destacam diversidade e desafios da circulação literária

Programação em Cachoeira reúne obras sobre Canudos, educação decolonial e livros artesanais de editora independente
Escritores baianos e editoras independentes apresentaram suas obras nesta sexta-feira (6), na 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), em Cachoeira, no Recôncavo. Com temas que vão da memória de Canudos à educação decolonial, a programação também colocou em discussão as dificuldades para fazer os livros chegarem a novos leitores.

Entre os espaços destinados à produção estadual estão a Casa dos Autores e Autoras Baianos e o projeto Vozes da Bahia, da Fundação Pedro Calmon (FPC), que selecionou 30 autores de diferentes territórios para participar da festa.

De Euclides da Cunha, o dramaturgo, diretor teatral e escritor Carlos Carneiro levou obras que articulam história, ficção e saberes do sertão. Em “Mané Vermei”, apresenta um sertanejo de Canudos, inspirado em uma pessoa real e descendente de sobreviventes da guerra, que interpreta os sinais da natureza e preserva conhecimentos populares da Caatinga.

Já “Entre a Cruz e a Espada” narra o romance entre Maria Rosa, seguidora de Antônio Conselheiro, e um capitão do Exército, situados em lados opostos do conflito. Para o autor, a literatura permite dar visibilidade a sujeitos cujas histórias permanecem pouco ouvidas. “O sertanejo quase não é ouvido, está à margem da academia, à margem desse campo literário”, afirmou.

A escritora, jornalista e professora Joalva Menezes de Moraes participou pela primeira vez da Flica como autora, após acompanhar outras edições na cobertura jornalística. Ela apresentou “Como tornar uma Escola Decolonial? Reflexões sobre possibilidades e caminhos”, resultado de sua pesquisa de doutorado na Universidade Aberta de Portugal.

A obra questiona a predominância de referências europeias na educação e propõe a valorização de saberes brasileiros, especialmente afro-brasileiros e indígenas. Joalva também defendeu o uso do verbo “sulear” como expressão desse olhar para o conhecimento produzido no Sul.

Outra participante foi a escritora e editora Yara Fers, responsável pela Arpillera, editora independente de Arembepe, em Camaçari. Com mais de 100 títulos lançados desde 2022, a editora produz livros artesanais numerados, com costuras aparentes, tecidos, relevos, recortes e papéis de diferentes texturas.

Em sua primeira participação na Flica, Yara destacou a importância do contato presencial com os leitores. “É diferente eu colocar esse livro numa foto no Instagram e a pessoa chegar e pegar e sentir o papel, o material”, disse.

Circulação das obras

O diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Sandro Magalhães, apontou a circulação como um dos principais obstáculos enfrentados pelos escritores. “Hoje já existe uma possibilidade maior de publicar seu livro, mas ainda há um grande problema: a circulação dessa obra”, afirmou.

Segundo ele, a instituição apoia a publicação de 100 obras por ano, trabalha na implantação de 300 espaços de leitura e prepara um novo Plano Estadual do Livro, da Leitura e da Memória, com diretrizes para os próximos dez anos.

Criada em 2023, a Casa dos Autores e Autoras Baianos busca ampliar o acesso dos escritores ao público da festa. De acordo com a curadora Dinalva Melo, a seleção considera a trajetória dos candidatos, a relação das obras com o tema do evento e a oportunidade de apresentar trabalhos ainda pouco conhecidos. Cada autor selecionado dispõe de dez minutos para falar sobre seu livro. O espaço também recebe exposições, apresentações musicais e debates.

A Flica segue até domingo (8), com programação em Cachoeira.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
CONEXÃO RECÔNCAVO

Formulário de contato