175 anos de Manuel Querino: o intelectual baiano que colocou a população negra no centro da história do Brasil

Nascido em Santo Amaro, pesquisador, professor e político foi pioneiro na valorização da contribuição africana para a formação da identidade, da cultura e da economia brasileiras.

Nascido em Santo Amaro da Purificação, Manuel Querino foi pintor, desenhista, abolicionista, jornalista, político e intelectual


Manuel Raimundo Querino completaria 175 anos nesta terça-feira (28). Nascido em 28 de julho de 1851, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, ele é reconhecido como um dos principais intelectuais brasileiros do início do século XX e um dos pioneiros na valorização da contribuição da população africana e afro-brasileira para a formação do Brasil. Historiador, artista, professor, jornalista e político, dedicou sua obra a contestar teorias raciais que predominavam na época e a registrar o protagonismo negro na construção da identidade nacional.

Órfão ainda na infância em decorrência da epidemia de cólera que atingiu a Bahia em meados do século XIX, Manuel Querino encontrou na educação um caminho para reconstruir a própria trajetória. Formou-se como desenhista, atuou como professor e jornalista, participou do movimento operário e tornou-se o primeiro homem negro a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Salvador, então no cargo de conselheiro municipal.

Republicano, abolicionista e defensor dos direitos dos trabalhadores, conciliou a atuação política com uma intensa produção intelectual voltada à história, às artes e à cultura brasileira.

Defesa do protagonismo negro

Em uma época marcada pela influência das teorias raciais europeias, que associavam o desenvolvimento do país à imigração europeia e inferiorizavam africanos e indígenas, Manuel Querino apresentou uma visão oposta. Em seus estudos, defendeu que os trabalhadores negros foram fundamentais para o desenvolvimento econômico do Brasil e que a herança africana está presente em diferentes aspectos da vida nacional, da arquitetura e da culinária às manifestações religiosas, artísticas e culturais.

Sua pesquisa também inovou ao valorizar os saberes populares e a tradição oral. Em vez de se limitar aos documentos oficiais, registrou relatos de artesãos, mestres de ofício, religiosos e moradores das comunidades negras da Bahia, metodologia que décadas mais tarde seria amplamente reconhecida pelas ciências humanas.

Obras que marcaram a historiografia

Entre seus principais livros estão Os Artistas Baianos (1909), A Raça Africana e os Seus Costumes (1916), A Bahia de Outrora (1916) e O Colono Preto como Fator da Civilização Brasileira (1918).

Nas obras, Manuel Querino demonstrou que africanos e seus descendentes tiveram papel decisivo na construção econômica, artística e cultural do país. Também foi um dos primeiros pesquisadores a registrar e valorizar a gastronomia afro-baiana, destacando receitas, técnicas culinárias e tradições que hoje integram o patrimônio cultural brasileiro.

Legado

Décadas antes da promulgação da Lei nº 10.639, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas, Manuel Querino já defendia a necessidade de reconhecer a centralidade da população negra na formação do Brasil.

Seu pensamento influenciou pesquisadores e escritores das gerações seguintes. Entre eles está Jorge Amado, que teria se inspirado em Manuel Querino para criar o personagem Pedro Archanjo, protagonista do romance Tenda dos Milagres.

Mesmo sendo considerado um dos mais importantes intelectuais brasileiros de seu tempo, Manuel Querino ainda é pouco conhecido fora dos meios acadêmicos. Os 175 anos de seu nascimento reforçam a importância de revisitar sua obra e reconhecer a contribuição de um pensador que ajudou a reescrever a história do Brasil ao afirmar que não é possível compreender a formação do país sem reconhecer o protagonismo da população negra.

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