Em entrevista ao Conexão Recôncavo, escritor baiano reflete sobre as perdas, a presença de quem acolhe e a esperança cristã a partir do livro “O Sabor das Coisas que Ficam”.
O luto precisa de espaço para ser vivido, com acolhimento e respeito à tristeza de quem perdeu alguém. Essa foi uma das reflexões apresentadas pelo diácono permanente da Diocese de Ilhéus (BA) e escritor baiano Rodrigo Dias Souza, em entrevista ao Conexão Recôncavo. Autor de O Sabor das Coisas que Ficam, ele abordou a experiência da perda e o papel da fé e das relações humanas nesse processo.
Para Rodrigo, a cobrança por felicidade constante dificulta o reconhecimento de sentimentos que fazem parte da vida. “Nós temos uma sociedade que tende a não aceitar a tristeza, não aceitar o luto”, afirmou. Na avaliação do diácono, lidar com a perda também pode produzir aprendizados sobre os vínculos e a própria existência.
Questionado sobre a expressão “saudade sim, tristeza não”, frequentemente utilizada em homenagens a pessoas que morreram, o escritor ponderou que a frase pode reforçar a negação da dor.
“É necessário ter um tempo de tristeza. A frase tem um forte apelo a negar a tristeza humana”, disse. Segundo ele, sentir saudade e se entristecer fazem parte da experiência de perder alguém querido.
Ao relacionar o tema à esperança cristã, Rodrigo destacou a crença na ressurreição como fonte de amparo. Na perspectiva apresentada pelo diácono, a fé oferece um horizonte para atravessar a perda, enquanto a memória preserva os vínculos com aqueles que morreram.
O cuidado com quem sofre, entretanto, exige atenção às palavras. Durante a entrevista, ele criticou expressões como “foi melhor assim”, “já estava na hora” e “foi Deus que quis”, que podem ampliar a dor, mesmo quando utilizadas com a intenção de consolar.
“Às vezes as pessoas acham que palavras, a retórica, o discurso ajuda. Às vezes não, às vezes atrapalha”, observou. Para o escritor, estar presente, escutar e demonstrar proximidade são formas de oferecer apoio às pessoas enlutadas. Nesse contexto, destacou também a importância do acolhimento nas comunidades de fé.
A reflexão se estendeu à solidão e ao enfraquecimento das relações cotidianas. Rodrigo mencionou a falta de tempo para encontros, conversas e momentos de convivência em uma sociedade marcada pela aceleração. Também apontou a contradição entre reunir milhares de seguidores nas redes sociais e continuar se sentindo sozinho.
Essas questões atravessam O Sabor das Coisas que Ficam. Conforme explicou o autor, a narrativa tem como personagens centrais Helena e João, cujas histórias estão ligadas a Bom Jesus da Lapa, na Bahia, e Belém, no Pará. A obra aproxima memória, perda e espiritualidade de experiências de fé presentes no cotidiano dessas cidades.
Assista aqui a entrevista completa:



